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03/11/11

A gente se acostuma, mas não devia... (Marina Collasanti)



A gente se acostuma a morar em apartamento dos fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. 


E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. 


E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir as cortinas e a acender a luz mais cedo. 


E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. 


A gente se acostuma a acordar sobressaltada porque está na hora. 


A tomar café correndo porque está atrasado. 


A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo na viagem. 


A comer qualquer coisa porque não dá tempo para almoçar. 


A sair do trabalho porque já é noite. 


A dormir pesado sem ter vivido o dia... 


A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: "hoje não posso ir"...


A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. 


A ser ignorado quando mais precisava ser visto... 


A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e necessita. 


A ganhar menos do que precisa e a fazer fila para pagar. 


A pagar muito mais do que as coisas valem. 


A saber que cada vez pagará mais e a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro para como pagar as contas.


A gente se acostuma à poluição. 


À luz artificial.


Às bactérias da água.


À contaminação do mar. 


À morte lenta dos rios. 


A não ouvir passarinhos, a não ter galo da madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. 


A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando de uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. 


Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. 


Se a praia está contaminada, a gente molha só o pé. 


Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. 


E, se no fim de semana não há muito a fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre o sono atrasado. 


A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que de tanto se acostumar, se perde de si mesma.  


Vire a mesa! !

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